Procrastinação: quando lutar e quando aceitar?

A procrastinação é algo muito debatido quando se fala em objetivos e produtividade pessoal. É sempre associado a algo negativo e que nos impede de avançar e de concretizar. É um bloqueio de ação. Mas afinal o que é procrastinar? E principalmente, é benéfico ou não?

pro·cras·ti·nar 
(latim procrastino, -are)

verbo transitivo

Deixar para depois. = ADIAR, POSTERGAR, PROTRAIR ≠ ANTECIPAR

Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

É adiar, e mais importante ainda, adiar o que é MUITO IMPORTANTE. É desviarmos a atenção das coisas que PRECISAMOS de cumprir, ocupando o nosso tempo de forma intencional, com outras atividades menos importantes. É aquilo que a minha avó chamaria “empurrar com a barriga”.

Procrastinar não é uma palavra nova ou da moda. Neste artigo da Oxford Scholarship Online, encontras uma dissertação sobre os estudos que vários filósofos ao longo da História fizeram sobre esta temática. Já na Antiguidade, as pessoas se preocupavam com o fato de adiarem o inevitável. Isto para compreenderes que não somos só nós, na atualidade, que precisamos de “um empurrão” quando chega a altura de darmos o primeiro passo. Ou termos autodisciplina suficiente para não fazemos scroll nas redes sociais quando sabemos que temos roupa para estender. Faz parte do ser humano e não é novo para ninguém.

Mas isto não significa que seja benéfico. Muito pelo contrário, é um dos maiores bloqueios à nossa produtividade pessoal. Mas como o autor Cal Newport afirma, a procrastinação não é uma falha pessoal, ou um defeito de personalidade, mas sim, uma adaptação evolutiva da espécie. Uma defesa do nosso cérebro para nos afastarmos de más decisões. Ele define-a como procrastinação evolutiva. Mas então, qual a razão para adiar projetos que sabemos serem benéficos para nós e que podem melhorar a nossa vida?

O bom senso diz-nos que as razões são falta de coragem, perfeccionismo e um medo terrível de falhar. Mas o autor diz que é apenas o nosso cérebro, o inconsciente, que não acredita verdadeiramente no projeto que temos pela frente. Que nos envia a mensagem, não faças, pensa mais um pouco nisso, mantém-te na tua zona de conforto.

A solução passa por, em vez de pararmos e ficarmos bloqueados, fazer exactamente o contrário: trabalhar mais, refletir, considerar todas as hipóteses e agir MESMO. A mensagem do Cal Newport é que:

“A procrastinação não é nosso inimigo mas sim uma fonte construtiva de críticas - uma voz de nosso passado paleolítico que nos diz que, embora goste de nossos objetivos, precisamos pensar um pouco mais sobre como chegaremos lá.”

Mas não encontres nesta frase o conforto que precisavas para adiar ainda mais. Esta frase deve levar-te à ação. O importante é não sentires culpa sempre que precisas de te afastar dos objetivos para refletires sobre eles de forma global. A procrastinação existe por alguma razão na nossa mente, nós é que levamos a um extremo oposto e não produtivo.

Procrastinação: quando lutar e quando aceitar?

Procrastinação: quando lutar e quando aceitar?

Na minha perspetiva, adiar não tem nada a ver com preguiça, como se possa pensar. Tem a ver com insegurança, com cansaço excessivo, com o stress continuo e com uma procura incessante de: eu neste momento estou ocupada com X e por isso é que não estou a fazer Y. Uma desculpa, um desvio para não cumprirmos o inevitável. Mas, adiar a preparação de uma reunião importante, não faz com que a reunião desapareça, apenas faz com que vás à reunião mais mal preparada.

TODOS ADIAMOS COISAS. Quem é que acorda de manhã com vontade de preencher o IRS? Ninguém certo? Todos adiamos tarefas totalmente aborrecidas que não nos dizem nada. E porquê? Porque simplesmente não gostamos delas, não são “valorizáveis” aos nossos olhos, e não vemos uma recompensa imediata na nossa qualidade de vida. Se bem que preencher o IRS melhora a qualidade de vida se for para receber retorno financeiro, mas para mim, é simplesmente chato. Só isso. Claro que faço, mas muito contrariada. Mas acabo por fazer. Porque é absolutamente necessário e OBRIGATÓRIO. Em suma, aquilo que nos leva a ação é o porquê das tarefas e qual é o propósito. Se não nos fizer sentido, deixamos para mais tarde.

Agora como podemos melhorar esta nossa tendência de adiar o inevitável?

“Comece por fazer aquilo que é preciso, depois aquilo que é possível e, de repente, estará a fazer o impossível”

São Francisco de Assis


ESTRATÉGIAS QUE VÃO MELHORAR A PROCRASTINAÇÃO:

  • ACABA COM OS PENSAMENTOS NEGATIVOS: acredita que os teus projetos, as tuas ideias, a tua intenção é boa, que tens qualidade e que vais desempenhar um bom papel. Estamos sempre a adiar tarefas porque não acreditamos que seremos capazes ou sequer, que nos vamos sair bem. É das maiores mentiras que contamos a nós próprios e pensa: se começares mais cedo a preparar-te vais ser muito mais bem-sucedida, porque não te entregaste ao trabalho apenas em cima do joelho.

  • VISUALIZA O RESULTADO: exemplo, estás em casa a olhar para o Facebook e tens as limpezas da casa todas para fazer. O tempo passa e percebes que já tiveste uma hora a fazer scroll e ainda não ganhaste vontade de te mexer (quem nunca?). Visualiza a tua casa a brilhar, a cozinha e as casas de banho num brinco, a roupa arrumada e passada. Não seria ótimo estares a distrair-te no Facebook, depois das tarefas feitas e livre de culpas?

  • VISUALIZA O QUE VAI ACONTECER SE NÃO FIZERES: esta é mesmo aquela que utilizo nas limpezas. Como seria quando começasse a acumular roupa, pó e sujidade se for protelando constantemente as limpezas? A minha casa deixaria de ser o meu porto de abrigo. O mesmo de passa no trabalho. Se acumular 150 emails por responder, quantos projetos e quantas respostas urgentes vou deixar de responder? Como é que o meu chefe ia ver isso? Acredita que te ajuda a levantares-te do sofá ou da cadeira da secretária e pores mãos à obra.

  • COMPORTAMENTO Vs RECOMPENSA: segue o conselho do autor de O poder do hábito, e percebe qual é o comportamento que precisas de acionar em primeiro lugar, uma pequena tarefa (trigger), e prepara uma recompensa para depois. Exemplo, depois de limpar as duas casas de banho faço uma pausa, como um gelado e vou continuar pela cozinha. É apenas um exemplo, não uma mensagem contra a tua dieta. Pode ser simplesmente, vou ler 10 páginas de um livro e regresso com outra disposição.

  • COMPREENDE O PORQUÊ: compreende a motivação que te leva a fazer. Imagina que tens um projeto no trabalho ou mesmo um projeto pessoal. Como por exemplo, um trabalho da escola do teu filho em que precisas de o ajudar. A vontade de fazeres bricolage, colagens e recortes é ZERO. Mas porque é que fazes? Porque percebes que é importante para o teu filho, porque vê-lo feliz é muito importante para ti. Transpõe esse sentimento para outras atividades que também consideres chatas mas que te vão dar um retorno fantástico.

  • DESCANSA, REFLECTE E AGE A SEGUIR: nenhum conselho de produtividade funciona, nenhuma ferramenta, nenhuma agenda, nenhum trigger ou recompensa que possas usar vai resultar se não descansares. Se estiveres exausta, sem vontade sequer de pensar, como vais ser produtiva? Claro que vais procrastinar. É óbvio. Nem que seja pela explicação dada pelo Cal Newport. Quando pensares na tarefa que tens pela frente, o teu cérebro vai duvidar da tua capacidade para o fazer. E não terá ele razão?


    Enquanto reflito na minha própria vida e nos meus projetos, percebo que o artigo estava planeado sair ontem. Mas ontem foi dia do pai. E eu estava exausta, física e mentalmente. Por isso, percebi que as minhas últimas energias tinham de ser dirigidas para aquilo que era prioritário para mim: a família. E hoje sinto que fiz um melhor trabalho do que teria feito ontem. Visualizei o resultado que queria, que era um artigo completo e com qualidade. E percebi que as condições estavam reunidas hoje. Quando cheguei a casa e orientei o jantar imaginem o que fiz? Escrever. Porque hoje era a tarefa mais importante de todas.

    Nota: Esta temática foi pedida por uma leitora que respondeu ao desafio Organiza-te Responde através da nossa página do Instagram. A pergunta era como não procrastinar. Este tema estava já planeado apresentar aqui e por isso foi possível, responder de forma mais pormenorizada. Espero ter respondido à questão e que tenha ajudado de alguma forma. Obrigado por estarem desse lado e se quiserem colocar alguma questão basta preencherem o formulário aqui. A todas as pessoas que já enviaram as suas mensagens, vão ser respondidas brevemente. Até lá, comentem, partilhem o blogue se vos fizer sentido para ajudarem este projeto. Muito obrigado por estarem desse lado.

Fontes: How to beat procrastination de Caroline Webb; Deep Work do Cal Newport.