Amar o aborrecimento

Aqui está um tema fantástico para se recomeçar a escrever. O aborrecimento.

Temo que talvez seja uma palavra que vai cair em desuso porque não deve haver nada que fugimos mais nestes dias do que estarmos aborrecidos. Perdeu-se a magia do “não fazer nada” que os italianos tanto auto proclamam. E que saudades tenho eu de ser miúda, ter 3 meses de férias, estar em casa sozinha e não ter absolutamente nada para fazer. Isto é quase mais raro que observar um diamante em bruto.

É certo que não gosto de estar completamente inerte e sem objetivos em mente. Há sempre algo em casa para fazer, há sempre um jantar para preparar, há sempre mais um livro para ler, ou um episódio de uma série para assistir.

Mas na verdade, aqueles momentos das férias grandes que por vezes já me aborreciam, agora fazem-me falta.

Porque hoje temo que as novas gerações não saibam bem o que isso é. O telemóvel, a internet e as agendas lotadas tiram-nos isso. Mas não foram as novas tecnologias que são as grandes vilãs. Somos nós os grandes vilões do nosso aborrecimento. Porque somos nós que ligamos o Netflix e o Instagram. Sou eu que fico a fazer scroll no feed, porque não quero sentir que não estou a aproveitar o tempo. Fui eu que me tirei este sentimento tão bom de “não fazer”.

É por isso é que as férias sabem tão bem. Porque, por minutos, temos aquela vaga sensação de desconexão e de silêncio. São minutos, não horas, muito menos, dias. Em que a palavra produtividade e agenda fica lá longe, em cima da secretaria. Os emails ficam a ser enviados para a caixa de entrada do e-mail da empresa e não para o pessoal.

Nestas férias verifiquei o e-mail da empresa 4 vezes. Ao final do dia, apenas para saber o que me esperava. Percebi que se tivesse visto 0 vezes, iria estar tão preparada para o que aí vinha do que estou. Nada preparada. Lolol Por isso, o próximo passo nas próximas férias é 0 vezes. Pequenos passos fazem grandes hábitos.

A ideia deste texto é apenas deixar transparecer a minha vontade de “nada”, para me preparar para o “tudo” que aí vem. Em que, mais uns meses, vou fazer revisões semanais, vou melhorar os meus hábitos, vou desenvolver-me enquanto pessoa e aprender cada vez mais.

Mas como o James Clear escreve, devemos apaixonarmos-nos pelo aborrecimento. Porque mesmo quando temos tudo organizado, todos os bons hábitos implementados, a consistência falha quando as tarefas se tornam rotineiras e aborrecidas. E é nessa altura que devemos voltar a acreditar que estar aborrecido é óptimo!

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Ana DiasComentário